Quem falaria que o sonho do precursor Willi Ninja se realizaria em vários cantos do mundo e teria tanta gente dançando e celebrando o que ele criou com outras pessoas maravilhosas?

Quem diria que esta seria uma revolução sexual e de expressão viva de arte, dança, gênero e construções? Uma revolução feita por vidas abatidas pelo dia a dia em uma sociedade totalmente preconceituosa e ignorante, baseada em instituições que historicamente nos tem dividido em raça, gênero, política e classe.

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O Voguing começou com uma expressão clara de manifestar a si mesmx. Nele, todo mundo podia se mostrar sem medo de ser julgado, como ocorre da porta pra fora de nossas casas.

Saberia o Willi (mother da Legendary House of Ninja) o impacto e a mudança que tudo isso teve nas nossas vidas? Quando vemos as imagens dele dançando, apoiado na árvore fazendo posing, nos perguntamos: ele saberia ou dimensionaria o tamanho do buraco que isso faria em nossos corações e vidas? Saberia que transformaria, com essa ferramenta chamada Voguing, a vida de um monte de gente, desde aquela época ate agora?

Será que eles saberiam o que ia acontecer com a nossa vida a partir do momento que nos encontramos com o Voguing? Que isso nos devolveria a confiança que nos tentaram tirar, os montes de amigos que faríamos, cada um falando um idioma, mas mexendo por um mesmo beat?

Foto: Bruna Brandão | BH Vogue Fever

Foto: Bruna Bradão | BH Vogue Fever

Porque na América do Sul tudo é mais difícil que no Primeiro Mundo, e é por isso que o que construímos é feito com sangue, suor, lágrimas e muita paixão. Porque as resistências são distintas, dependendo do lugar de fala e do privilégio de cada um.

Por que nos encontramos neste ponto que se chama Voguing e, desde o primeiro dia que tivemos contato com ele, não o conseguimos deixar? Por que os beats não saem da nossa cabeça? Por que a necessidade de criar Houses, de ficar junto às manas que têm as mesmas afinidades que você, de querer pertencer a um grupo específico de pessoas que dançam juntas? Por que não e apenas uma dança urbana? Por que amamos tanto isso?

Por que ocupa tanto espaço da sua vida que todo o resto chega a ficar com ciúmes?

Por que a cada som de BAM! SHEWEAM! STRIKE A POSE! KABOOM! os nossos sorrisos e nossa felicidade ficam num ponto tão extremo que achamos que o que estamos vivendo naquele momento é surreal e queremos vivê-lo pra sempre?

Porque é uma dança, uma expressão que foi criada a partir da dor, desespero, necessidade de simplesmente SER. E ser maravilhosx. Junto a outrxs maravilhosxs.

Porque até quando andamos pela rua, a calçada vira runway. Porque, quando esperamos o sinal do farol, mexemos as mãos fazendo hands. Porque quando andamos no metrô ou no ônibus com as manas, começamos a dançar. E três pessoas já são suficientes para começar uma mini ball dentro de qualquer transporte público, entre risadas e sorrisos, mexendo as mãos ante o olhar perplexo de gente que não sabe o que estamos fazendo.

Foto: Tetê Moreira | Brasília Vogue Ball

Foto: Tetê Moreira | Brasília Vogue Ball

É uma linguagem sim. Uma linguagem nossa. Muito íntima, mas ao mesmo tempo poderosa para as outras. Porque cada mana que se contagia com isso leva consigo para sempre um mundo de alegria momentânea, de adrenalina e maravilha constante no tempo que dura um chant.

Porque num mundo tao frio e hostil como o nosso, guardamos o sorriso e os movimentos únicos e irrepetíveis de cada voguer que já vimos dançar.  Porque, embora os elementos sejam os mesmos, todo voguer tem algo pra ensinar e entregar. Todxs fazemos parte de um maravilhoso mundo que para outrxs começou em outra época e agora esta acordando e enchendo no nosso peito. Esse mundo pra ser transpassado e não é toa que e assim.

Todas sabemos nossas dores e cicatrizes, mas, naquele momento em que as manas começam sua performance, parece que nada mais importa do que estar juntxs e celebrar nossas existências baseadas em resistência e luta. De todas as cores e formas possíveis. De todos os cantos e todos os sotaques. De todos os tamanhos e cabelos diferentes. Todas contamos as nossas historias nesses segundos de batalhas, que não são só contra a pessoa que se está batalhando na ball, mas uma batalha que a gente trava contra a própria vida. Uma tapa na cara pra todxs que nos achincalharam e tentaram matar. Porque todo dia lá fora tem gente que quer apagar os sonhos de alguém.

Foto: Camila Hurtado | House of Keller

Foto: Camila Hurtado | House of Keller

Voguing é celebração da existência e da historia de um corpo. Numa sociedade patriarcal heterossexista, dançar Voguing é um ato revolucionário.

“Porque a gente cai, mais levanta cheia de glitter”.

Guardamos no coração todos os dias os sorrisos e danças de nossas irmãs e irmãos quando viajamos e nos encontramos pra uma ball. Guardamos num potinho o calor suficiente pra suportar qualquer inverno cru, até chegar uma próxima ball, para rever todas essas pessoas que, sem saber o porquê e sem compartilhar muito, amamos demais e sentimos saudade.

Porque achamos a família que não foi imposta. Estamos tomando decisões por nós mesmos. Estamos nos posicionando na vida. Escolhendo o lado da vida que nos faz sentir melhor com nós mesmos, nossas decisões políticas, pessoais e afetivas. E ainda bem que achamos o Voguing.

Bora ficar juntas, manas? And hold that pose for me!

Texto de Tofu Quing, da House of Keller.

Foto de destaque: Thiago Sant’anna | Rio Vogue Ball

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