Na primeira edição do BH Vogue Fever (em setembro de 2015), tivemos a surpresa de receber dois voguers de Santiago do Chile: Tofu Quing e Mati Keller. Eles não só participaram dos workshops com Archie Burnett, como também batalharam na Dengue. Mati levou para a casa o prêmio de melhor runway da noite. E QUE runway.

O sentimento de identificação foi imediato. Quando foram embora, Mati e Martha deixaram em BH a sensação de que não estamos sozinhos. É difícil, é f*da estabelecer uma cena de Voguing fora do eixo Europa-E.U.A., mas tem gente aqui bem perto de nós enfrentando a mesma dificuldade.

Mati tem 25 anos e é a madre da casa de dança que leva seu sobrenome. A House of Keller é literalmente uma house. Mati trabalha pelo Chile divulgando seu trabalho como dançarinx, maquiador, drag e professor. Chega em casa e encontra Martha, a Tofu Quing [que além de ser voguer e chef do primeiro restaurante vegano do Chile, colabora para o BH is Voguing traduzindo nossos textos para o espanhol], com quem tem uma amizades daquelas que não se encontra todo dia.

Conversamos com Mati sobre a cena Vogue do Chile, identidade de gênero e seu trabalho com a House of Keller.

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BH is Voguing: Como você conheceu o Vogue e decidiu dar aulas?

Mati Keller: Em 2012, eu estudava em um centro de dança chamado Espiral, onde há dança moderna, clássica e contemporânea. Eu sentia que isso era o que eu queria fazer. [Queria] Dançar, mas não me sentia completo. Eu procurei outras escolas de danças técnicas até que achei uma onde só faziam aulas de danças urbanas. Eu fiquei malucx, porque tinha descoberto uma nova linguagem, algo mais familiar para mim. Todas as sextas eu fugia da minha aula de composição coreográfica para dançar girly style (street jazz feminino) nessa nova academia que eu encontrei. Era um estilo que me deixava mais confortável, mas ainda assim sentia um vazio.

Foto: Dila Puccini

Foto: Dila Puccini

Comecei a investigar outros estilos urbanos e femininos na internet até que eu encontrei um vídeo de Barcelona, Espanha. Vi, numa mostra de dança, 12 dançarinxs vestidos com muitas cores mexendo os braços, quebrando as cadeiras, pulando com força e caindo no chão. Drama foi a primeira coisa que veio na cabeça. Pesquisei o que eles estavam dançando e descobri o waacking, que comecei a aprender de forma autodidata.

Em novembro de 2013 Angel Ceja, um conhecido WaackPunker, visitou o Chile para dar aulas num festival chamado Dance Machine. Quando cheguei à aula, ele me reconheceu de imediato porque os organizadores do evento já tinham falado de mim para ele. Eu estava no circuito de danças e era uma das poucas pessoas que dançava este estilo “não conhecido” por muitxs. Depois da aula pude conversar a sós com Angel e expressar todas as dúvidas que ninguém no Chile conseguia esclarecer. Depois de muito tempo falando sobre história, fundamentos e elementos do movimento ele disse uma coisa que mudou meu caminho completamente: “Você conhece o Voguing? Pesquisa, porque isso é o que você é. Um voguer”.

Foto: Bruna Brandão

Foto: Bruna Brandão

Depois desse dia eu comecei a aprender e nunca mais parei. No fim de 2015 comecei a fazer workshops mensais de vogue femme (que é o estilo que mais pratico, o que me é mais confortável). Antes eu dava aula de outros estilos comerciais femininos, mas não de Vogue.

Quando descobri a dança Vogue, eu me apaixonei. Digo como dança porque para mim a dança é uma coisa, e outra coisa é a mensagem que o Vogue leva consigo. Quando entendi tudo de outra maneira, no contexto em que o Vogue se desenvolve e a importância que tem e teve na vida de muitas pessoas, quis compartilhar este momento mágico em que o externo não importa, só existe o que a gente quer criar.

Quero ver se você pode segurar essa pose para mim! Fotos: Luis Zamora

Quero ver se você pode segurar essa pose para mim! Fotos: Luis Zamora

BHV: A House of Keller é um capitulo maravilhoso do Vogue aqui na América do Sul. Como essa história começou?

Mati Keller: A HOK nasceu de uma necessidade pessoal. Eu queria compartilhar e criar coisas em conjunto. Me sentia muito sozinho fazendo tudo e as pessoas com quem contava não estavam tão comprometidas e com a mesma garra que eu naquele momento. Juntei um grupo de pessoas para que a gente decidisse o que ia acontecer com o Vogue no Chile. Eu preciso fazer as coisas da melhor forma possível e dessa vez não seria diferente. Com o tempo só ficou quem deveria ficar e começamos a trabalhar: Tofu Quing, Mati e uma pessoa mais.

Foto: Camila Hurtado

Foto: Camila Hurtado

A primeira aparição, quando eu consegui ter a dimensão do que estava por vir, foi no Carnaval pela diversidade sexual e de gênero do Chile [em maio de 2015]. A maior avenida de Santiago ficou multicolor e fechamos o evento com uma apresentação com muito Vogue. Eu quis fazer algo diferente na apresentação e decidi aprender maquiagem e mostrar drag. Eu convidei diferentes dançarinxs e a gente se apresentou. As pessoas ficaram encantadas e fechamos o evento do ano seguinte também.

Foto: Camila Hurtado

Foto: Camila Hurtado

Com o tempo, Diegolate e Bambi Juju também entraram para a House. Os dois têm funções diferentes dentro da casa. Atualmente, somos integrantes e participamos em diferentes atividades dentro da cena underground e de clubes do Chile.

BHV: Nós conhecemos você e Martha quando vieram para o BH Vogue Fever. Naquele evento você apresentou montações com um quê de andrógino. Em março, no Brasília Vogue Ball, vimos duas montações drag. Este é um caminho que você pretende seguir?

Mati KellerEu adoro brincar com temáticas, personagens, desconstruir, construir tanto o gênero, quanto com o que eu quero projetar e provocar nas pessoas. Eu amo muito maquiagem e isso já me ajuda, assim como o Vogue, a viver uma realidade de fantasia. Eu falo de realidade, ainda que acompanhado de fantasia, porque esse aspecto tem muito de real pra mim. Eu vendo a fantasia e quero continuar fazendo isso, seja no drag, no andrógino ou em outra área, porque isso tem a ver com o momento que estou vivendo.

Foto: Tetê Moreira

BHV: Dá pra viver de Vogue em Santiago, financeiramente falando? A arte se sustenta? Em cinco anos, que papel o Vogue vai ter na sua vida?

Mati Keller: A resposta imediata é: não, não dá pra viver de Vogue. Aqui no Chile eu tenho duas aulas de vogue femme por semana, e elas são suficientes apenas para pagar o aluguel do espaço da aula. Eu amaria viver de Vogue, mas aqui ainda não é possível e provavelmente nunca será. Tenho outras atividades que geram renda para que eu possa me dedicar ao Vogue sem ganhar dinheiro com ele. O Chile ainda é um país onde as pessoas têm medo de se mostrar como realmente querem ser, e isso mexe com tudo.

Pensando sobre a arte se sustentar ou não, eu acho que para te sustentar, você tem de ser de elite. Aqui, tudo o que não é assim tem de ser auto sustentável. É lamentável, embora existam fundos concursáveis do conselho da cultura e das artes, mas ainda não me inscrevi neles.

Em cinco anos me vejo dançando, aprendendo e curtindo aquilo que me faz sentir livre. Estou trabalhando muito pra conseguir administrar meu próprio espaço. O Vogue já é parte da minha vida, embora não seja uma cultura ou movimento social que me pertença, mas eu o vivo, eu o sinto e ele me faz sentir parte de algo.

BHV: Como o Voguing se relaciona com a sua sexualidade e a sua identidade de gênero? 

Mati Keller: Quando entendi que o que você tem entre as pernas não importa, tudo mudou. Transitar no Voguing me ajudou a compreender muito mais do que o que eu entendia num primeiro momento. Não sinto que sou um homem (como a construção social de um homem), nem sou uma mulher. Isso não é uma questão. Só quero fazer as coisas que me fazem bem, vestir como me sentir no dia e me relacionar com as pessoas do jeito que me seja mais confortável.

Foto: Camila Hurtado

Foto: Camila Hurtado

Tradução do espanhol por Tofu Quing, da House of Keller

Foto de destaque:  (Tetê Moreira)

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