Nascida em NY, Kia Labeija é uma artista visual cujo trabalho nunca se distancia do fato de ser mulher, negra e de viver com HIV/Aids desde o nascimento. O Vogue é uma das suas formas mais fortes de expressar toda essa potência. Kia é a estrela do vídeo “Dove”, single de Pillar Point, dirigido por Jacob Krupnick.

O sobrenome Labeija é muito familiar para quem conhece um pouquinho da ballroom scene de NY. Quando soubemos, na semana passada, da existência deste vídeo, ficamos desesperados por informações de quem era a mulher que estava apenas SERVING IT pelas ruas de Bogotá, Colômbia. Kia Labeija conversou com a gente por e-mail sobre identidade de gênero, a produção do vídeo, seus trabalhos como artista e, claro… Vogue!

Click here to read the english version.

Haga click aqui para ver la version en español.

BH is Voguing: Você é uma profissional do Vogue e membro da Royal House of Labeija. Queremos saber como o Vogue entrou na sua vida, e como foi sua entrada para a House of Labeija.

Kia Labeija: Como danço desde nova, sempre soube da existência do Vogue. Meu primeiro encontro com o Vogue foi aos 17 anos, quando vi Paris is Burning numa aula de estudos sociais. Danielle Polanco – da House of Ninja em NY – frequentou a mesma escola que eu, e se formou uns anos antes. Depois de Paris is Burning, me lembro de ver Danielle e também Javier Ninja no Youtube. Para mim, o que eles estavam criando era lindo e emocionante, mas não era algo que eu buscava.

Pillar Point - Dove

Uns dois anos depois, quando trabalhava na Webster Hall (a maior night club de Nova York), conheci uma drag maravilhosa. Nos tornamos próximas, já que éramos umas das pouquíssimas pessoas negras que trabalhavam ali e tínhamos muitas coisas em comum. Um dia ela me contou que estava em uma house e que queria que eu me juntasse a ela. Eu já conhecia o sistema das houses e fiquei interessada. Sou uma jovem negra que nasceu com HIV e [na house] pude conhecer várias pessoas que também tinham contraído o vírus. Foi a primeira vez, desde a morte da minha mãe, de doenças relacionadas à Aids, que eu senti que não estava sozinha.

Pillar Point - Dove

Fui inserida na House of De La Blanca, onde o Father Julian De La Blanca me ensinou os elementos do Vogue. Ele viu que eu tinha experiência com dança e decidiu me incentivar ensinando o old way. Ele foi aluno da Amy Xtravaganza, uma mulher cis conhecida por ser uma das mais proeminentes da ballroom scene. Julian De La Blanca me ensinou vários dos movimentos que ela o havia ensinado.

Depois dos treinos semanais, passamos a nos aventurar nas batalhas. Antes de estar envolvida com as balls, eu já era uma garota das festas. Eu me montava, saía e curtia noites de bebedeira dançando Vogue na cena queer de Nova York. Fazia isso praticamente todas as noites desde quando tinha 19 anos. Comecei a formular meu estilo batalhando nas festas e aprendendo os beats e músicas com as Lendas que estavam nessa bem antes de mim. Depois que minha house fechou, minha mãe gay, que foi quem me levou para a De La Blanca, disse que tinha virado Labeija. Então eu a segui para essa house. Sou membra desde 2011 ou 2012. Eu danço Vogue desde 2009. Fiz minha estreia como Labeija na Latex Ball de 2012 e tenho batalhado desde então.

Pillar Point - Dove

BHV: Você e Taina Larot viarajam para a Colômbia para filmar o vídeo de Dove. Vocês fizeram parte da concepção do vídeo? Puderam participar?

Kia: Fiquei muito empolgada quando me convidaram para participar no projeto de Dove. Achei que seria interessante dançar Vogue em uma música que não fosse disco ou house, ou típica das ballrooms. Foi desafiador encontrar espaços na música em que os elementos da dança pudessem ganhar vida, de modo que pudessem ser reconhecidos como passos de Vogue.

Taina Larot e Kia Labeija - Josefina Santos

Taina Larot e Kia Labeija nos bastidores de Dove. Foto: Josefina Santos

Na verdade, Taina é minha namorada, então foi maravilhoso contracenar com ela! Inicialmente, ela foi convidada para fazer o figurino – via E’KW=L, a marca dela, e fez várias outras criações, inclusive o que eu vesti na Latex Ball de 2015. Mas quando o diretor soube que ela estava no projeto, ele a perguntou se ela topava interpretar a ladra do pássaro. Como ela é bailarina profissional e artista visual, ela ficou empolgada com a mensagem poderosa que seria ter um casal de mulheres em uma história de amor tão bonita. Demos vida a essas personagens e participamos de importantes decisões de pré e pós produção.

BHV: Ficamos muito curiosos sobre o seu estilo no Vogue. Seus movimentos são muito limpos, e você mistura elementos do old way com new way e femme. Como você o descreveria?

Kia: Me inspiro muito na Janet Jackson. Ela sempre dança de forma precisa e limpa. Eu via e revia vídeos dela quando era criança. Mesmo nos movimentos fortes, ela ainda consegue ser fluida e feminina. Eu gosto de misturar os estilos com base no que a música está me dizendo. Eu comecei na categoria woman’s performance e nela há mais liberdade para misturar estilos, justamente por ser uma categoria de performance, e não especificamente de old way ou new way ou vogue femme.

Pillar Point - Dove

Meu estilo é o old way, mas, quando você batalha com garotas de estilos diferentes, você tem de estar preparada para batalhar no elemento dela. Então acabei aprendendo a misturar os estilos na pista, mas sempre tentando usar os estilos novos de uma maneira bem old school. Eu gosto do jeito old way de se fazer soft and cunt no vogue femme. No new way não costumo fazer os clicks [contorções, típicos do new way e que requerem flexibilidade monstra], mas gosto das linhas e das caixas. Por fim, pop, dip and spin mora no meu coração.

BHV: No vídeo, você tinha uma coreografia ou estava só fazendo freestyle?

Kia: Dove foi todo freestyle. Não tinha coreografia, só movimentos improvisados. Se você realmente pode dançar Vogue, você pode dançar Vogue em qualquer coisa – não pensando em coreografia, mas interpretando a música, contando a sua história e dançando com o seu coração. Muitas pessoas fazem aulas e aprendem os movimentos básicos, mas grande parte não consegue realmente dançar Vogue. A aula serve para que você aprenda os elementos, o esboço, mas VOCÊ tem de escrever a redação, ou então é só um plágio.

Pillar Point - Dove

BHV: No seu site e no artigo de Antwaun Sargent para a VICE, você fala sobre a influência do HIV/Aids em várias formas de arte. Como isso funciona para o Vogue?

Kia: O Vogue é uma reação direta à opressão sofrida por corpos negros queer e trans. O Vogue tem sido uma ferramenta usada por essa comunidade para se expressar e se amar pelas últimas cinco décadas. Nos anos 80, a comunidade das balls foi duramente atingida pela epidemia de Aids. Muitas lendas e ícones daquela época se foram. Então, ao falarmos dos Legendarys, quando evocamos sua presença na ball, quando dizemos seus nomes, estamos prestando uma homenagem a eles. Esta dança foi a salvação para muita gente que precisava de um espaço onde pudesse se sentir bonita mesmo vivendo com HIV/Aids, gente que foi expulsa de casa ou gente que sobreviveu a formas extremas de abuso motivadas pela sua identidade sexual ou de gênero.

Quando estou na pista e danço Vogue, coloco todo o meu coração naqueles movimentos. Deixo que o público testemunhe as minhas experiências de vida por meio da minha dança. Hoje, as mulheres trans negras são o grupo mais afetado pelo HIV. Muitas dessas mulheres trans encontram segurança nas balls: é onde elas podem ser veneradas e elogiadas, em vez de espancadas e destruídas. E isso fica impregnado em suas performances.

Foto de destaque: Kia Labeija em still do vídeo Dove, de Pillar Point

Comments

comments