A Conferência das Bruxas, primeira Vogue Ball do Rio de Janeiro, mostrou com muita força do que é feito o povo dessa cidade. Organizada por Diego Carvalho e Victórya Devin, da House of CaZul, a ball teve um júri 100% brasileiro, formado pela nossa mother Paula Zaidan, Marco Chaves, da House of Kínisi, e o father Diego. Os competidores batalharam nas mesmas cinco categorias praticadas no Brasília Vogue Ball. Só que, infelizmente, não conseguimos fazer a cobertura ao vivo desta ball em solo carioca. A nossa father, Tetê Lipstick Afrodite, não só competiu (e lacrou) como fez um relato de quem ferveu no calor desta festa. MORRAM DE INVEJA, aqui vai:

Haga click aqui para ver la version en español.

Foto: Tiago Sant'Anna

Foto: Tiago Sant’Anna

No último feriado, as danças urbanas invadiram a cidade do Rio de Janeiro. Um dos maiores eventos desta modalidade no Brasil ocupou a cidade das artes e mobilizou dançarinos de vários cantos do país e do mundo. O festival Rio H2k contou com a presença de profissionais de grande destaque no universo das danças urbanas, promoveu workshops de diversos estilos, além dos espetáculos, batalhas, showcases e festas. Por abranger inúmeros estilos das danças urbanas, esse festival é hoje considerado um dos grandes pontos de encontro dos dançarinos do Brasil.

Mas peraí… Cadê os voguers?

Nessa edição, o nosso querido e amado Voguing ficou de fora da programação do evento. Foram, ao todo, seis edições do H2k e somente em duas ocasiões o Voguing foi incluído: Em 2014 com workshop da Danielle Polanco e em 2015, quando Fran Manson pode escolher qual estilo daria em sua aula no palco principal. O Voguing está se popularizando. A cada dia surge um novo viral. Várias pessoas estão usando esta linguagem em seus vídeos e performances. E pensar que no Brasil não há demanda por Voguing é, no mínimo, ingenuidade.

Em vez de chorar as pitangas, dessa vez o voguers cariocas resolveram fazer diferente. Paralelamente ao H2K, Diego Carvalho e Victórya Devin se dedicaram a produzir a primeira Vogue Ball do Rio de Janeiro.

Com o tema Conferência das Bruxas, a ball ocorreu no Espaço Marun, no bairro Catete, próximo ao centro do Rio. A festa estava toda decorada com manequins de bruxas bem estranhas e macabras, teias de aranhas e bichos medonhos. Os participantes estavam montadíssimos, alguns até irreconhecíveis, cada look mais incrível que o outro. Tinha voguer de vários cantos do Brasil e também do Chile – nossos hermanos da House of Keller <3.

As batalhas foram divididas em 5 categorias: Runway, Hands Performance, Virgin Vogue, New way X Old Way e Vogue Femme.

Category is: Runway

Com o tema witch couture extravaganza, os jurados avaliaram a melhor montação bruxa fashion, além de, claro, a melhor walk. Ninguém brincou em serviço: as bruxas estavam montadíssimas. Mati Keller, como sempre, maravilhosa de drag queen, com aquele salto lendário lacrador serving that walk de estremecer a dancefloor. Desta vez, serviu pernas e beleza com um look inspirado numa bruxa na floresta. A capa usada na pista, babem, é do Teatro Municipal de Santiago.

Foto: Tiago Sant'Anna

Foto: Tiago Sant’Anna

Felix Pimenta estreou suas tranças azuis em um look de bruxa afro misteriosa, nos remetendo à imagem de um orixá.

Foto: Tiago Sant'Anna

Foto: Tiago Sant’Anna

Thiago Basseto estava irreconhecível montada na sua drag Melanie Bounce, com um vestido longo, parecendo uma bruxa debutante com um pentagrama desenhado na testa.

Foto: Neko Bermudes

Foto: Neko Bermudes

Eu, Tetê Moreira, fui montada de demônia com chifres enormes e um look cheio de penas pretas de corvo e uma saia longa preta. A final foi entre mim, Mati e Basseto. Na Runway contra Mati, a minha ideia foi rasgar a saia preta revelando a virilha machada com brocal vermelho que descia ao longo das pernas, fazendo referência ao sangue de uma mulher estuprada. Em seguida, na grande final, Basseto revela uma língua gigante saindo da boca ao mesmo tempo que levantei o cartaz “a cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil” e, no verso, “a culpa nunca será nossa” remetendo ao episódio do estupro coletivo que ocorrera naquela semana no estado do RJ.

Foto: Neko Bermudes

Foto: Neko Bermudes

Os gritos da plateia foram instantâneos. Foi uma final memorável. Para receber a medalha de campeã, assumi o microfone e disse que o Voguing não é só uma dança. É uma cultura de luta e de resistência e existe uma questão política por trás desta dança. Também não consegui deixar de mencionar o caso do estupro coletivo ocorrido naquela semana. A culpa nunca é da vítima.

Category is: Hands Performance

Com apenas quatro competidores, a disputa foi acirrada. O tema da categoria era caldeirão das bruxas e as mãos dos meninos derreteram nos beats do DJ. A final foi entre Vitor Inácio que, no meio da batalha, tirou as luvas e revelou mãos cheias de sangue, contra Eddy Soares, que engoliu os beats da música din da da com elegância e levou a medalha de campeão pra casa.

Foto: Neko Bermudes

Foto: Neko Bermudes

Category is: Virgin Vogue

Essa categoria pegou fogo! O tema era bruxas de conto de fadas ou filmes, remetendo as bruxas da nossa infância. Mas de infantil e iniciante esses virgens não tinham nada. Ansiosos por participar da sua primeira batalha de Voguing, todos entraram com fome de vitória e deram sangue nas batalhas.

A final entre Victórya Devin e Karoline Lima foi emocionante! As meninas estavam on fire e até precisaram de um tempo para acalmar os ânimos. Em um certo momento a regra don’t touch foi ignorada pelas competidoras e a batalha virou quase um ring de luta. A batalha precisou ser interrompida pelos jurados por que a regra é clara, meus caros, no Voguing é proibido tocar nos seus adversários.

Foto: Neko Bermudes

Foto: Neko Bermudes

Acalmados os ânimos, Victórya foi campeã da categoria com suas lentes verdes de gato babaderésimas.

Conferência das Bruxas - Victórya Devin - Tiago Sant'Anna

Foto: Tiago Sant’Anna

Category is: Old Way/New Way

O tema dessa categoria foi filhos de Kimera – bruxas que se transformam em animais. Cada dançarino de old way que entrava na pista dava uma sensação de que estávamos assistindo a uma ball americana nos anos 90. Tinham também os mega flexíveis do new way que pareciam bonecos sem articulações. A final foi entre Juliete Schultz, mulher maravilha da flexibilidade, contra o vencedor Lucas Fonseca, que arrasa na precisão de linhas e ângulos e nos combos de braços e punhos.

Foto: Neko Bermudes

Foto: Neko Bermudes

Ainda que essa categoria tenha rendido batalhas memoráveis, ela misturou danças de expressões e corporeidades completamente diferentes, deixando claro que não dá mais para misturar old way e new way em uma só categoria.

Category is: Vogue Femme

Declarada aberta a categoria mais esperada da noite, a sensação era que na verdade tinha sido aberta uma enorme caixa de pandora. Os voguers surgiam até das gretas da boate para participar da batalha.

Vídeo: Tofu Quing

Com o tema magia branca/magia negra, a categoria foi mesmo uma explosão de catwalks, duckwalks, spins and dips. A diferença entre estilos também ficou muito evidente. Alguns dançarinos mantiveram um estilo mais soft and cunt enquanto outros se jogavam no dramatics. Luky Rodrigues estava inspiradíssimo, se jogando nos beats e fazendo os dips mais incríveis da noite. Para o azar dos seus adversários, aquele era o seu dia de campeão e, realmente, não tinha chance pra mais ninguém.

Conferência das Bruxas - Luky Rodrigues - Neko Bermudes

Foto: Neko Bermudes

Vogue Ball Rio: Conferência das Bruxas

Jurados: Diego Carvalho (Cazul), Paula Zaidan (Lipstick) e Marco Chaves (Kínisi)

Commentator: Eduard Kon (Handsup)

Vencedores

Runway: Tetê Lipstick

Hands Performance: Eddy Soares

Virgin Vogue: Victórya Devin

New way X Old way: Lucas Fonseca

Vogue femme: Luky Rodrigues

Foto: Neko Bermudes

Foto: Neko Bermudes

Veja todas as fotos babadeiras da Conferência das Bruxas aqui e aqui.

Foto de destaque: Juliete Schultz na categoria runway. (Foto: Tiago Sant’Anna | Conferência das bruxas)

Comments

comments