É a música da Madonna?

Você está, agora, nos anos 1980. Você é um jovem gay americano, provavelmente negro ou latino, e vive em algum lugar próximo do Harlem, na Costa Leste. Você não deve ter muita grana. Com certeza, não é fácil ser homossexual numa época como esta. Então, seus espaços de diversão e sociabilidade são bastante restritos, limitados a certos lugares da cena underground, povoados pelas houses – as “casas” -, grupos em que gays, transsexuais, drags e mulheres se reúnem quase como uma família. Seja bem-vindo: você está no berço do Vogue.

Como estilo de dança, o Vogue é facilmente reconhecido: braços ágeis fazem linhas marcadas, ângulos precisos  e movimentos velozes. As referências das formas são muitas: hieróglifos egípcios, rigor militar, artes marciais, entre outras. Em algumas variações, os passos são afeminados e escandalosos, os quadris são protagonistas e o ápice dramático da coreografia é o dançarino se jogando no chão com uma pose muito característica: o dip. O som vem da house music dos anos 1980. Naquele espaço original, o Vogue era mais do que dançar: era um espaço de expressão, de auto-confiança e de estar em comunidade.

O nome tem uma razão simples: a dança tem também raízes nas prisões americanas, onde os gays, presos por sua conduta imprópria, não tinham muito interesse pelas Playboys e acabavam tendo somente uma outra revista como fonte de diversão. Adivinha qual? Isso mesmo. Com a Vogue em mãos, eles se enfrentavam em batalhas que consistiam em imitar as poses daquele mundo fashion visto em fotografias.

Com o tempo este costume saiu do lugar mais restrito e foi parar no underground, se espalhando pelas balls, festas marcadas pelas disputas entre as casas. Nada de violência: aqui, o embate é na passarela, com figurinos extravagantes, performances memoráveis e, claro, coreografias espetaculares. Era o começo da ballroom scene.

Aos poucos, aquilo que nasceu no underground veio para o mainstream justamente pelas mãos da maior das divas pop. Quando Madonna chamou seus fãs para “let your body move to the music” e listou os nomes de fenômenos da moda ao mesmo tempo, o mundo soube fazer as associações corretas. Fale “Vogue” em alguma balada e qualquer um vai colocar as duas mãos espalmadas ao lado do rosto, no gesto característico do videoclipe.

Madonna foi criticada por alguns ao se apropriar daquela subcultura, mas é só abrir a letra da canção para perceber que o princípio da coisa está ali: ” When all else fails and you long to be/ Something better than you are today/ I know a place where you can get away/ It’s called a dance floor, and here’s what it’s for, so… come on, Vogue!”

Foto de destaque: Dançarinos na catwalk do BerlinVoguingOut, agosto de 2013  (AP Photo | Gero Breloer)

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