Da próxima vez que se sentar perto de Archie Burnett, apenas escute, e escute com atenção. Não é todos os dias que se encontra um artista que seja capaz de guardar tanta humildade e sabedoria. Para nossa sorte, este homem teve a visão e a oportunidade de poder viajar pelo mundo espalhando seu conhecimento.

Um dançarino de house que também ensina vogue, waacking, hustle e muito mais. Conhecido por ser um dos Ninjas originais (nomeado pelo próprio Willi), e que hoje é também o avô da House of Ninja.

No último mês de julho, tivemos o privilégio de conviver mais um pouco com este ícone e dar rolê com ele ouvindo suas músicas favoritas, que acabaram virando nossas músicas favoritas. Graças a ele, experimentei cheesecake pela primeira vez na vida, e logo no que ele considera o melhor de Nova York, no Junior’s. Passeamos a pé e de carro pela região do Crown Heights, onde ele mora, conversando sobre Trump e Temer. Quando falamos que queríamos ver o show da Vivacious, ele não somente ligou pra ela e avisou que estava enviando suas garotas – deixando-a preparada para fazer as brasileiras pagarem o maior mico – como também dirigiu quase uma hora para nos encontrar lá. Por fim, nos nossos últimos dias, ele nos levou à sua barbearia favorita, localizada no Queens, onde ele é freguês há mais de 15 anos. E durante o seu corte de cabelo, conversou com a gente.

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BH is Voguing: Como você começou a dançar Vogue? Quando e por que isso acontececu?

Archie Burnett: Bom, vamos ver. Eu comecei em 1980, com o Voguing. Eu o descobri por acaso, porque depois de voltar de uma boate – The Loft – a gente costumava ir ao Washington Square Park. A festa começava à meia noite e ia até o dia seguinte, domingo, até por volta de uma da tarde. Então o que a gente costumava fazer era ir até o parque, comprar balões e vender para ter dinheiro para as pilhas do nosso som, sabe? Então, estávamos dançando no parque.

E o parque tinha várias entradas e a gente costumava apelidar as entradas de acordo com a clientela que costumavam passear por lá. Então, uma era o lesbo row, outra era a fag alley. Tinha outra que era onde os jamaicanos ficavam, e lá eles vendiam drogas, sabe… Então, foi nesse lugar que eu vi. No Washington Square Park. E foi muito estranho quando eu vi, e aí pensei: quer saber? Minhas palavras exatas foram: quer saber de uma coisa? Eu quero experimentar isso. Sim.

Archie Burnett

BHV: Quando foi isso?

AB: 1980.

BHV: Quem estava com você?

AB: Um amigo meu, Anthony Marshall. Ele não está mais entre nós, porque morreu com o vírus. Sim… Porque eu o perguntei o que era aquilo e ele me disse que aquilo era Voguing. E era old way, a coisa egípcia. E eu fiquei, assim: yeah, gosto disso!

BHV: Você já era um dançarino.

AB: Sim, quer dizer, eu tenho dançado desde os três anos, sabe? Então, foi apenas mais uma coisa em que me liguei.

BHV: E o que aconteceu depois disso? 

AB: Bem, depois, vamos ver. Continuei indo aos clubes e aí conheci Willi [Ninja] no Washington Square Park. E aí começamos a andar juntos e eu comecei a frequentar as boates onde ele ia. E as boates que ele frequentava, foi aí que eu vi muito disso – Tracks, sabe? Existia um universo inteiro que eu não conhecia, eu apenas não sabia nada sobre isso. Entende?

BHV: Dá pra ver que você teve uma grande amizade com o Willi.

AB: Sim!

BHV: Você disse que o conheceu no Washington Square Park.

AB: Ahãn.

BHV: O que o Willi Ninja representa pra você?

AB: Bom, vamos lá. Ele representa alguém que tem paixão, sabe? Ele decidiu fazer uma coisa e realmente fez. E a maioria das pessoas, quando elas dizem que vão efetivamente causar uma mudança, elas nunca conseguem. Mas quando alguém consegue isso numa dimensão tão grande é, tipo, uau!, sabe? Isso te faz pensar que as possibilidades são reais. Ele queria levar [o Vogue] para o mundo todo e ele conseguiu. Eu fiquei, assim, uau! E não é todo dia que a gente conhece alguém… que seja assim! [começa a rir porque o barbeiro do nosso lado liga o secador interferindo na nossa gravação.] Não é todo mundo que tem oportunidade de conhecer uma pessoa assim, não no tempo de uma vida. Então é legal. É bem legal, na verdade!

Archie com Tyrone, Bravo e Willi Ninja. Arquivo de Bravo Lafortune

Archie com Tyrone, Bravo e Willi Ninja. Arquivo de Bravo Lafortune

BHV: E você teve uma grande amizade com ele?

AB: Sim, um cara realmente bom, sabe? Eu ainda cuido da mãe dele, porque ela está num asilo agora. E, sim, é pra isso que amigos e família devem servir. É exatamente pra isso que a gente existe. Mas veja, tem um outro aspecto dessa cultura: para o Willi, a família vinha antes de tudo, e não necessariamente de sangue. Tem a ver com quem está no seu círculo mais próximo. Isso é muito importante.

BHV: Você está falando da House [of Ninja, criada por Willi].

AB: A House, sim. E você também pode guiar pessoas que não necessariamente estão na house, mas o que importa é a relação que você tem com elas sabe? É muito, muito envolvimento. Há pessoas que estão só de passagem, que vêm e vão embora. E há as pessoas que ficam a vida toda. É esse tipo de coisa.

Check your body at the door (Andrew Eccles)

Check your body at the door: Archie com Willi, Bravo and Barbara Tucker (Andrew Eccles)

BHV: Quais são as diferenças entre a ballroom scene hoje e antigamente? Quando você a observa hoje, o que você vê?

AB: Bom, há alguns aspectos positivos nela, e alguns negativos. Os negativos são que, como eu disse, por quase 30 anos eles estavam correndo atrás do próprio rabo, fazendo a mesma coisa sem nenhum progresso. Em algum nível isso é verdade, mas há algumas jóias na cena, que fazem a cena reviver. Por exemplo, Dashaun [Wesley], ele é uma jóia. Eu acredito que o futuro é com ele.

Eu penso que muitas pessoas estão tentando retornar ao senso de família, que a cena deve existir para um propósito harmonioso, e não para alimentar uma rivalidade viciosa. A competição é boa, mas sim no espírito competitivo, isso é bom. Não se chegarmos num ponto em que a coisa vira, sabe, um jogo. Porque durante muito tempo, as Houses do Voguing nos anos 80, elas eram como gangues gays, sabe? E entrar pra uma gangue não é exatamente o melhor a se fazer.

BHV: Você está espalhando sementes de Voguing pelo mundo todo. Para nossa sorte, Belo Horizonte é um destes lugares. Quando você decidiu fazer isso e o que você pensa dessa nova geração faminta de Vogue que está surgindo agora?

AB: Pessoalmente, eu sei o que me ensinou. O que eu pensava era o seguinte: se eu plantar uma semente e ela voltar, talvez ela mude e inspire o que está acontecendo aqui [em Nova York]. Nesse aspecto, eu estava certo. Isso aconteceu. Porque quando uma cena fica tão preguiçosa e complacente no ponto de pensar oh, olha, sabe, isso é a nossa coisa, e apenas nossa coisa e bla bla bla… sabe? Para que algo possa crescer, precisa de sangue novo. Às vezes esse sangue novo tem de vir de um lugar totalmente absurdo para oferecer uma nova perspectiva. Isso é progresso, você sabe? Então eu entendi que se eu virasse professor, mais cedo ou mais tarde isso voltaria para casa, porque eu sei o que isso me ensinou.

Agora, quando eu ensino, eu não transmito a parte ruim. Eu não ensino a parte do shade. E se eu mostro a parte do shade, eu ensino num tom de humor, e não num tom de agressão. Então, isso é o que eu tenho feito. E até agora tem funcionado, sabe? Algumas pessoas ficaram com raiva. Tudo bem. Eu estou dando a eles uma cena, eu estou representando algo que eles talvez não sejam capazes de representar porque eles não têm acesso. Mas tudo tem a ver como você é introduzido a uma informação. Pode ser fogo de palha ou sintonizar a pessoa para sempre. Então eu sempre tento fazer minhas apresentações a esta cena de um jeito acolhedor, em vez de não-acolhedor.

BHV: Você está orgulhoso do trabalho que tem feito?

AB: Totalmente. Eu posso afirmar que não me arrependo de nada. De nada mesmo.

BHV: O que você espera que aconteça com o Voguing no Brasil em cinco anos?

AB: Aceitação… para muitos da comunidade que não conseguem se expressar sem, como posso dizer? Sem violência, sabe? E, se tivermos esperança, isso vai ajudar a trazê-los para perto das pessoas que não sofrem preconceito.

BHV: Você disse na aula que só começou a ensinar depois de 19 anos. Qual é a diferença entre um bom dançarino e um bom professor?

AB: Ok. Nem todo dançarino consegue ensinar e nem todo professor consegue dançar. Oh, boy... Essa é a regra número um! O maior problema com muitos dançarinos é que o processo pelo qual eles passaram para que aprendessem o que eles aprenderam, muitas vezes eles não conseguem articular com a clareza necessária para que outra pessoa possa entender, sabe? Eu penso que se você está consciente, se você tem consciência do todo, você pode se tornar um bom professor, porque pode articular exatamente o que está acontecendo com você, como o movimento funciona no seu corpo ao ponto de traduzir para outra pessoa. Então eu penso que consciência é a chave.

Archie Burnett

BHV: O Voguing mudou a sua vida?

AB: Sim, mudou. Quero dizer, pelo que eu conquistei até agora. Me deu um acesso diferente e isso acabou ajudando… bem, é terapia. Sabe? Vogue é terapia. Nós tivemos alguns problemas, sabe, durante a vida, então isso ajuda. Ajuda muito.

BHV: E a última, que talvez soe um pouco estranha. Qual o sentido de tudo isso, de tudo isso que estamos vivendo por meio do Vogue?

AB: Bem, vamos lá. A arte é um reflexo da vida e a vida é um reflexo da arte. Então eles dizem que a a arte imita a vida e a vida imita a arte. É um processo cíclico. Sem arte e sem criatividade, uma cultura pode morrer. É assim que acontece, sabe? Não vai mudar. E isso é algo que precisa ser respeitado. Atualmente temos essa coisa de republicanos e a oposição, e as artes estão no meio do fogo cruzado há um tempo. E a verdade é que tudo que a gente vê foi pensado por uma visão. Imagine se essas visões desaparecem? Nós ficaríamos estagnados, como humanidade. Então a arte imita a vida e isso é necessário.

Archie Burnett

BHV: Você tem alguma mensagem para os voguers do Brasil que nos lerão? 

AB: Sim, não entendam errado. Não entendam tudo errado! Aproveitem o momento. Vocês vão contribuir muito para a cena se vocês fizerem o que fazem e viverem de um jeito autêntico. Mas, não entendam mal. Não comecem a entrar para gangues gays e a agirem como se isso fosse propriedade de vocês porque a dança pertence a todos. A liberdade pertence a todos e isso é algo que todos temos de compartilhar.

Produção: Danielle Pinto e Tetê Moreira

Texto e entrevista: Danielle Pinto

Tradução: Danielle Pinto e Pedro Nogueira

Edição: Pedro Nogueira

Foto de destaque: Archie Burnett cortando o cabelo | Tetê Moreira

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